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Seletividade alimentar no Transtorno do Espectro Autista: é comportamento, sensorial ou ambos?

A forma como nos alimentamos, a escolha dos alimentos e nossos hábitos alimentares incluem não somente o tipo de alimento, mas a rotina em torno das refeições, baseadas em influências sociais, culturais e ambientais em geral. A variedade e qualidade dos alimentos consumidos na primeira infância estão associadas a um melhor estado nutricional, impactando diretamente o crescimento e desenvolvimento desde as fases mais precoces da vida.

O ambiente familiar, que inclui a disponibilidade e acessibilidade aos alimentos, o contexto alimentar e a frequência de refeições fora de casa, também podem influenciar o comportamento alimentar, principalmente de crianças e adolescentes.  Ambientes positivos, sem estresse, sem pressão nas refeições e maior oferta de alimentos saudáveis estão associados a uma melhor dieta e, consequentemente, auxiliam na manutenção da saúde (Mahmood, et al., 2021).

A seletividade alimentar ou recusa de determinados alimentos pode ser mais comum em crianças e indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A causa é multifatorial, incluindo aspectos sensoriais, cognitivos e comportamentais. Essa recusa pode ser o resultado da interação de diversas características e limitações que podem ser diferentes de indivíduo para indivíduo. A pessoa dentro do espectro autista pode enfrentar mais dificuldades, como alterações na sua sensibilidade e a estímulos sensoriais, na sensação de fome e saciedade e, consequentemente, no consumo de uma maior variedade de alimentos (Campello, et al., 2021).

Para conseguir comer uma variedade grande de alimentos, vários sistemas precisam estar coordenados para oferecer boas sensações e conforto para a criança frente à exposição a determinado alimento.

A seletividade alimentar nessa população com TEA pode levar a uma restrição no repertório alimentar, recusa de grupos alimentares e resistência à introdução de novos alimentos, tendo hábitos restritivos, aversivos e até mesmo ritualísticos em relação à alimentação, o que é conhecido como a rigidez cognitiva, característica comum de ser observada nos indivíduos com o transtorno do neurodesenvolvimento. (Quintana, et al.,2023).

A rigidez cognitiva pode vir inclusive do aumento da sensibilidade  (hipersensibilidade), que causam reações de estresse e recusa intensa, ou hiposensibilidade, onde pode ser apresentada a falta de interesse por alimentos e preferência por gostos mais fortes (Lino, et al.,  2024), ambas condições são comuns dentro do espectro e podem afetar o consumo alimentar, com associação do momento da alimentação com desgaste emocional, estresse, ansiedade ou medo da possibilidade de mudança dos alimentos. A necessidade de previsibilidade caracteriza uma busca por segurança na exposição a estímulos.

Os diferentes alimentos que comemos no nosso dia a dia, oferecem um conjunto de diferentes texturas, aromas, cores, sabores, temperaturas e sons de mastigação, sendo esses os fatores sensoriais que mais influenciam a seletividade em indivíduos com TEA (Campello, 2021). A exposição a novos alimentos pode causar reações adversas, como recusa, aversão, náuseas, comportamentos agressivos e estresse familiar. A associação do momento das refeições com um cenário desgastante e outras experiências negativas em torno desse momento fragilizam ainda mais o indivíduo e podem potencializar sua seletividade e rigidez, na qual a alimentação passa a ser associada a um momento de estresse e sobrecarga sensorial (Bourne, et al., 2022).

A regulação sensorial, que se trata da forma como o sistema nervoso dos pacientes com TEA percebe, organiza e responde a estímulos externos e sensoriais do próprio corpo e do ambiente (Ferreira, et al., 2024), pode facilitar ou dificultar o processo da alimentação. É necessário a inclusão da família e, muitas vezes, de um profissional especialista neste processo, para ensiná-los a como lidar com situações de desconforto e como introduzir novos alimentos, respeitando os limites e permitindo a autonomia nas escolhas, sem forçar a interação com determinados alimentos.

As atividades com uma equipe multidisciplinar são essenciais nesse processo: atividades de exposição a novas texturas, receitas, atividades lúdicas e muitas outras formas de estimular o desenvolvimento e melhorar a flexibilidade dos pacientes se mostram eficazes no aumento do repertório alimentar e na introdução de novos alimentos (Lino, et al., 2024).

Como ajudar uma criança ou um adolescente com TEA a ter contato com novos alimentos?

O processo de exposição a alimentos deve ser confortável e respeitar os limites de conforto da pessoa. Não se deve forçar o consumo e observar todo e qualquer pequeno avanço já é importante. É importante sempre apresentar diferentes formas de interação com o alimento, e nem sempre essa interação é o ato de comer e não envolve colocar o alimento na boca, como:

  • Usando utensílios como garfo, estimulando a coordenação motora e o movimento de levar o garfo ou colher à boca (sem necessariamente comer) (Lino, et al., 2024).
  • Controlar os estímulos do ambiente. O comer é um momento de calma e interação familiar, devendo ser associado à tranquilidade, sem excessos de estímulos visuais e sonoros, que podem prejudicar a concentração na refeição e a associação da mesma com um momento marcado por estresse e ansiedade (Lino, et al., 2024).
  • Uso de brincadeiras lúdicas, como quebra-cabeças, músicas, atividades de relaxamento, estimulando o toque e a interação com alimentos, parabenizando e incentivando por “pequenos passos”, como cheirar, segurar e soltar, e relevar atitudes como empurrar, gritar ou jogar alimentos, pois se trata de um processo que necessita de paciência e compreensão. (Magagnin, et al., 2018).
  • Compartilhar refeições (comer ao mesmo tempo) é um grande incentivo para o consumo alimentar. A família se sentar à mesa auxilia no estímulo visual, a criança é incentivada por estar vendo os pais, irmãos, avós comerem uma refeição juntos, com uma conversa leve e um ambiente sem pressão. (Magagnin, et al., 2018).

A compreensão desse conjunto de fatores é essencial, principalmente para adaptar condutas, de forma individualizada, mantendo sempre como base o respeito às suas limitações e a introdução gradual de novos alimentos – buscando equilibrar o processo com a redução do estresse, ajuste da sobrecarga sensorial e zelo pelo bem-estar e desenvolvimento saudável.

Artigo com colaboração de Laura Bezerra Rodrigues, estagiária de nutrição da Universidade Presbiteriana Mackenzie no Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi.

Referências: 

BOURNE, L; MANDY, W; BRYANT-Waugh, R. Avoidant/restrictive food intake disorder and severe food selectivity in children and young people with autism: A scoping review. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 64, n. 6, p. 691-700,jun. 2022.

CAMPELLO, E. C. M. et al. Seletividade alimentar em crianças diagnosticadas com Autismo e Síndrome de Asperger nos tempos atuais: uma revisão integrativa. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação[S. l.], v. 7, n. 11, p. 713–727, 2021.

FERREIRA, R.D.A. et al. Compreendendo as alterações sensoriais em crianças autistas: uma revisão literária. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences [S. l.], v. 6, n. 12, p. 694–705, 2024.

LINO, P. F. V. et al. Relevância das estratégias nutricionais e intervenções de educação alimentar e nutricional no desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences , [S. l.], v. 6, n. 6, p. 1797–1811, 2024.

MAGAGNIN, T. et al. Relato de Experiência: Intervenção Multiprofissional sobre Seletividade Alimentar no Transtorno do Espectro Autista. ID on line. Revista de psicologia[S. l.], v. 13, n. 43, p. 114–127, 2018.

MAHMOOD, L.; FLORES-BARRANTES, P.; MORENO, L. A.; MANIOS, Y.; GONZALEZ-GIL, E. M. The influence of parental dietary behaviors and practices on children ‘s eating habits. Nutrients, Basel, v. 13, n. 4, p. 1138, 2021.

QUINTANA, F. M.; TIECHER, A.; RIBEIRO, G.; RIBEIRO, P. F. D. A. O transtorno do Espectro Autista e a alimentação – uma revisão. Brazilian Journal of Health Review[S. l.], v. 6, n. 5, p. 23631–23651, 2023.

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